Tariana
- Autodenominação
- Onde estão Quantos são
- Família linguística
Os Tariana se reconhecem e são reconhecidos entre as etnias do Uaupés como “filhos do sangue do trovão”, bipó diroá masí. De origem Aruak, hoje a imensa maioria dos Tariana fala a língua Tukano e vive no povoado de Iauaretê ou em comunidades próximas, às margens do Uaupés.
Concomitante ao processo de adensamento urbano em curso em Iarauetê, os Tariana têm buscado articular bens e costumes dos “brancos” – tais como mercadorias, dinheiro, papéis... – com a riqueza herdada dos ancestrais – entre as quais, nomes, enfeites cerimoniais, mitos...
Nestas páginas encontram-se informações específicas sobre este grupo. Dados gerais sobre a história, o modo de vida e a visão de mundo em grande medida compartilhados pelos mais de 20 grupos que habitam a região do alto Rio Negro estão no verbete Etnias do Rio Negro.
Localização e população
As comunidades Tariana estão distribuídas ao longo do médio e alto curso do rio Uaupés, em três distintos núcleos de concentração. O primeiro e mais importante deles é formado pelas comunidades situadas no povoado de Iauaretê e em suas imediações. Quatro dessas comunidades correspondem aos bairros mais antigos do povoado (São Miguel, Dom Bosco, Santa Maria e São Pedro), ao passo que outras seis estão localizadas a pouquíssima distância (Japurá, Aracapá e Sabiá, à margem direita do rio Papuri muito próximas à sua foz, e Campo Alto, Itaiaçu e Miriti, localizadas às margens do rio Uaupés, a primeira abaixo de Iauaretê e as duas últimas acima).
Os outros dois núcleos Tariana estão separados do primeiro por comunidades Tukano, Arapaso e Pira-Tapuia, estando um localizado no alto Uaupés e outro no médio curso desse rio. Ou seja, há um núcleo situado a montante do núcleo central de Iauaretê, formado por duas comunidades (Santa Rosa e Periquito), e outro a jusante, formado por quatro comunidades (Ipanoré, Urubuquara, Piu-Pinu e Nova Esperança).
A população dos Tariana no Distrito de Iauaretê foi estimada, em 2004, em cerca de 1.300 indivíduos. Há ainda um número desconhecido de famílias Tariana que hoje vivem na cidade de São Gabriel da Cachoeira e em outras comunidades ou centros urbanos do Rio Negro, como Santa Isabel e Barcelos. Em termos populacionais, o povoado de Iauaretê concentra a grande maioria da população Tariana.
Língua
Hoje a língua Tariana, da família Aruak, é falada apenas por indivíduos pertencentes a sibs de posição hierárquica inferior. A explicação que dão para isso está relacionada ao fato de que, uma vez vivendo no Uaupés, os homens da maior parte dos sibs passou a se casar com mulheres Wanano e Tukano, de modo que as crianças nascidas dessas uniões foram se habituando às línguas maternas. Seguindo a regra da exogamia lingüística característica da região, homens Tariana não se casam com mulheres de sua própria etnia. Hoje praticamente todos são falantes do Tukano, que funciona como língua franca no Uaupés. Sua língua original é muito próxima à dos Baniwa, grupo aruak que ocupa praticamente toda a extensão do rio Içana.
História
É consenso entre os Tariana e seus vizinhos que os Tariana não são originariamente do rio Uaupés, tendo ali chegado em tempos passados, e se estabelecido pelas imediações de Iauaretê muito antes da chegada dos brancos. Mais precisamente, seu lugar de origem é a cachoeira de Uapuí, localizada no alto curso do rio Aiari. Em termos de distância geográfica, este afluente do rio Içana é muito próximo ao curso do alto Uaupés, para o qual teriam atravessado por caminho terrestre. Este deslocamento em direção sul é um evento que a narrativa mítica tariana situa logo após seu surgimento como “gente” (masa). Ou seja, embora sua origem tenha se dado ao lado daquela de outros grupos de língua Aruak que ainda hoje habitam a bacia do Içana, o processo de crescimento e dispersão dos Tariana como grupo ocorre à medida que se deslocam da bacia do Içana para a do Uaupés. Em algumas versões de sua origem mítica, há alusões a respeito de conflitos com os Baniwa, que os teriam levado a empreender a migração rumo sul.
Ao longo do percurso em direção à região de Iauaretê, há alguns sítios de parada mais ou menos prolongada, nos quais é estabelecida uma ordem hierárquica entre os ancestrais tariana que surgiram no rio Aiari. Outros ancestrais dos Tariana vêm também a aparecer nesses locais, sendo incorporados ao final da escala hierárquica. Essas personagens míticas são os ancestrais dos diversos sibs patrilineares que compõem aquilo que hoje se designa como a “etnia Tariana”, um grupo exogâmico distinto no contexto do rio Uaupés.
Presença missionária
Desde seu início, com as primeiras explorações a mando da coroa portuguesa no século XVII, a história da colonização do rio Negro só veio a ter uma mudança significativa com o fim do ciclo da borracha (1870-1920) e, de modo geral, a decadência da economia extrativista do Amazonas. A partir de então, as missões salesianas irão assumir papel preponderante, valendo-se de vultuosas subvenções do Governo Federal e concentrando suas ações em um amplo projeto de catequese dos povos indígenas da região.
No final do século XIX, os salesianos foram precedidos por missionários franciscanos que procuraram estabelecer aldeamentos no rio Uaupés, chegando a obter grandes concentrações de índios Tariana na localidade de Ipanoré, bem como de índios Tukano em Taracuá. O projeto missionário franciscano do Uaupés foi, porém, interrompido com a expulsão de três missionários pelos Tariana de Ipanoré, em 1883, motivada por haverem exibido do púlpito da igreja da missão uma máscara de Jurupari, utilizada nos rituais de iniciação masculina e expressamente proibida à contemplação das mulheres (Koch-Grunberg, [1909/10]1995:15-6; Stradelli, [1889]1990:281).
Nas primeiras décadas do sé