De Povos Indígenas no Brasil
Foto: Suki Ozaki, 2006

Guató

Autodenominação Onde estão Quantos são Família linguística
MS, MT
419 (Siasi/Sesai, 2014)
Guató

Jovem Guató, atravessando de canoa a baía Uberaba. Foto: Suki Ozaki, 2006
Jovem Guató, atravessando de canoa a baía Uberaba. Foto: Suki Ozaki, 2006

Os Guató, considerados o povo do Pantanal por excelência, ocupavam praticamente toda a região sudoeste do Mato Grosso, abarcando terras que hoje pertencem àquele estado, ao estado de Mato Grosso do Sul e à Bolívia. Podiam ser encontrados nas ilhas e ao longo das margens do rio Paraguai, desde as proximidades de Cáceres até a região do Caracará, passando pelas lagoas Gaíba e Uberaba e, na direção leste, às margens do rio São Lourenço. No interior deste vasto território sua presença foi registrada desde o século XVI por viajantes e cronistas.

Foi entre 1940 e 1950 que se iniciou de modo mais intenso a expulsão dos Guató de seus territórios tradicionais. O gado dos fazendeiros invadia as roças dos índios e os comerciantes de peles dificultavam a permanência dos Guató na ilha Ínsua e arredores. Acuados, migraram para outros pontos do Pantanal ou se dirigiram para as periferias de cidades, como Corumbá, Ladário, Aquidauana, Poconé e Cáceres etc. Foram poucas as famílias que permaneceram na ilha Ínsua. A partir da década de 50, os Guató foram considerados extintos pelo órgão indigenista oficial e assim, foram excluídos de quaisquer políticas de assistência. Foi somente em 1976 que missionários identificaram índios Guató vivendo na periferia de Corumbá. Aos poucos o grupo começou a se reorganizar e a lutar pelo seu reconhecimento étnico. Hoje, são os últimos canoeiros de todos os povos indígenas que ocuparam as terras baixas do Pantanal.

Língua

Até a década de 1960, a língua Guató permaneceu classificada como língua isolada. Em 1970, o lingüista Aryon D. Rodrigues publicou o texto Línguas ameríndias propondo, pela primeira vez até então, sua filiação no grande e altamente hipotético tronco lingüístico Macro-Jê. Anos depois, a lingüista Adair P. Palácio concluiu e divulgou novos estudos fazendo referência à tese de Rodrigues (1970), que tratou novamente do assunto em Línguas Brasileiras (1986). Antes deles, no entanto, a língua havia sido registrada por vários cronistas e etnógrafos. Max Schmidt (1942) fez o registro mais denso antes da tese de doutorado de Palácio (1984).

Apesar de estar filiada ao tronco Macro-Jê, a língua Guató não pertence, ao menos segundo consta na literatura, a nenhuma família lingüística a ele relacionada, inclusive a família Jê. Esta situação por certo é fruto da ausência de maiores estudos sobre o parentesco das línguas indígenas no Brasil. Entretanto, levando em conta as propostas apresentadas por Montserrat (1994), acredito que a língua Guató pode ser alternativamente considerada como uma família lingüística de um só membro, pertencendo ao tronco Macro-Jê, de acordo com o esquema que segue:

  • Tronco Macro-Jê
    • Família Guató
      • Língua Guató

Mas se hoje em dia a família lingüística Guató possui apenas um único membro, no passado talvez tivesse tido mais representantes. Esta avaliação leva em conta o fato de ter havido muitos povos indígenas na região do Pantanal, ao menos até o período colonial.

A caracterização geral da língua Guató pode ser compreendida da seguinte maneira:

“É uma língua tonal (ou seja, o tom alto ou baixo de uma vogal modifica o significado das palavras), predominantemente aglutinante com respeito à formação das palavras, apresenta marcas de ergatividade (os marcadores de sujeito dos verbos transitivos e intransitivos são diferentes) e é do tipo VSO (a ordem predominante é verbo-sujeito-objeto). Um sistema numeral de base quinária até o número 20 e decimal para os demais é uma das características que a distingue da maioria das línguas indígenas brasileiras” (Palácio, 1987: 75)

Nos dias de hoje, a língua Guató está praticamente extinta. Até o começo de 2008, havia 5 falantes no núcleo de Corumbá, mas com o falecimento de Francolina, que tinha mais de 100 anos de idade, o número ficou reduzido a quatro. Existe mais um único falante do Guató na região de São Lourenço/ Cuiabá.

Há, em toda a região pantaneira, apenas 5 falantes da língua indígena. Apesar desse triste quadro, existem hoje tentativas de revitalizar a língua e estimular o seu uso na escola indígena.

Nomes

O vocábulo guató apareceu grafado pela primeira vez nos Commentarios do espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca, escrito na primeira metade do século XVI. Daquele momento em diante, a palavra guató foi gravada de várias formas em fontes textuais primárias: “guataes, guatás, guathós, guatos, guatòs, goatos, guattos e guatues” (Oliveira, 1996).

Em 1901, Schmidt registrou a palavra maguaato, usada para denominar uma ave conhecida como frango d´água, por ele grafada de maneira semelhante à auto-denominação étnica. Por conta disso, Susnik (1978) afirmou que o termo guató corresponderia a maguaato. Atualmente, há dúvidas com relação a essa associação, pois a grafia que aparece nas versões modernas dos Commentarios não parece ter sido uma auto-identificação, mas um apelativo guarani, assim como os demais nomes étnicos de povos não-guarani ali registrados.

É possível, por exemplo, que guató seja uma derivação de guatá, verbo que em Guarani significa andar, caminhar, circular, viajar e transitar, anotado dessa maneira no início da conquista Ibérica para indicar um povo canoeiro com grande mobilidade espacial. No decorrer dos anos, guatá acabou sendo pronunciado e escrito como guató, incorporado como denominação e autodenominação étnica em um contexto sociolingüístico marcado por intensos contatos interétnicos.

Localização

Entrada da aldeia Uberaba, com a casa do líder Guató, Severo Ferreira e igreja local (prédio azul). Foto: Suki Ozaki, 2006
Entrada da aldeia Uberaba, com a casa do líder Guató, Severo Ferreira e igreja local (prédio azul). Foto: Suki Ozaki, 2006

A ocupação guató, limitada exclusivamente à região pantaneira, permaneceu relativamente inalterada até meados do século XIX, quando se intensificou o processo de ocupação da região do alto Paraguai, especialmente após a Guerra do Paraguai (1864-1870), com a presença de ex-soldados, militares e fazendeiros. A historiografia a respeito dos Guató não deixa dúvidas quanto à extensa área que outrora ocupavam, onde os índios encontravam-se dispersos em pequenos núcleos familiares.

Na primeira metade do século XX, Monoyer (1905) e Schmidt (1942) buscaram delimitar com maior precisão a área ocupada pelos Guató. Durante os anos de 1900, 1901 e 1902, Monoyer, francês com conhecimento em etnografia, esteve em Mato Grosso e observou os Guató nos rios Paraguai e São Lourenço, numa área pantanosa que margeia os rios. Em 1901, Schmidt (1942) realizou sua primeira expedição etnológica aos Guató, contatando várias famílias que habitavam a Morraria dos Dourados, a Serra do Amolar, o Canal D. Pedro II (Ilha Ínsua) e as lagoas Gaíba e Uberaba. Também obteve informações sobre a existência de alguns Guató no rio Caracará, um leito do rio Paraguai, e além disso constatou que o território Guató totalizava uma área de 72.600 quilômetros quadrados.

Anos mais tarde, em 1910, Schmidt fez sua segunda expedição à área Guató. Seu objetivo principal era estudar os Guató que moravam no rio Caracará e seus respectivos aterros. Em 1928, Schmidt empreendeu sua terceira e última expedição etnológica aos Guató. Contatou algumas famílias que moravam às margens do rio Paraguai desde a localidade de Descalvado até abaixo da lagoa Gaíba, no rio Alegre, braço do rio Cuiabá e no Canal D. Pedro II (Ilha Ínsua).

Aspecto do Pantanal que rodeia a Ilha Ínsua, Terra Indígena Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006
Aspecto do Pantanal que rodeia a Ilha Ínsua, Terra Indígena Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006

Nota-se que a maioria dos relatos, descrições etnográficas e estudos etnológicos produzidos ao longo do século XIX até a primeira metade do século XX, apontam os Guató como o único grupo a ocupar a área compreendida entre os paralelos de 16º 30’a 19º 00 de latitude Sul e os meridianos de 56º 30’a 58º 00’de longitude Oeste de Greenwich.

Assim, a área de ocupação guató situa-se inteiramente na região pantaneira, a maior parte em território brasileiro, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, havendo ainda uma porção inclusa em terras bolivianas. Destacam-se dessa área as seguintes extensões ocupadas por esse povo: curso principal do rio Paraguai, rio Paraguai-Mirim, rio Alegre, região do Caracará, rio São Lourenço, parte do rio Cuiabá, Canal D. Pedro II, lagoas Uberaba e Gaíba, Morraria dos Dourados, Serra do Amolar e Ilha Ínsua. Outras grandes lagoas, como a Mandioré, Vermelha e Cáceres, também devem ter sido ocupadas pelo grupo. Trata-se de extensões que ainda não foram investigadas pelos pesquisadores (Oliveira, 1996).

Atualmente, existem três núcleos guató, um deles em Mato Grosso do Sul (aldeia Uberaba, Ilha Ínsua) e dois em Mato Grosso, nos municípios de Barão de Melgaço e Poconé. Nestes, encontra-se a Terra Indígena Baía dos Guató (aldeias Aterradinho do Bananal e Aterro São Benedito), juntos aos rios Perigara e Cuiabá. O terceiro núcleo, em Mato Grosso, fica próximo à Cáceres, no entanto ainda são necessários estudos antropológicos para identificar a população guató que ali reside e delimitar o território por eles ocupado [dados de 2008].

População

A população guató que residia em 2008 em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso é de 175 e de 195, respectivamente (Funasa, 2008).

Apesar dos vários encontros de viajantes e cronistas com a população guató, os dados numéricos registrados nessas expedições abrangeram sempre apenas parte da população indígena. Isso ocorreu em função da dispersão do grupo pela região pantaneira. Antes da Guerra do Paraguai, Florence, em 1825, calculou em cerca de 300 pessoas o total da população guató na região do alto Paraguai, não tendo acesso, contudo, à população da lagoa Gaíba que, segundo relatos de moradores das redondezas, era bastante numerosa e poderia chegar a 2 mil índios.

Em 1848, o Diretor Geral dos Índios da Província de Mato Grosso, Joaquim Alves Ferreira, em relatório enviado ao Ministério dos Negócios do Império, registrou 500 Guató em todo o alto Paraguai, incluindo as lagoas Gaíba e Uberaba, a região do rio São Lourenço e do rio Paraguai-Mirim, até o Descalvado.

No período posterior à Guerra, Koslowsky, que permaneceu três semanas no núcleo guató de alto Paraguai, em 1894, encontrou 29 índios na região. Já Schmidt, em 1901, registrou 46 Guató residindo na Ilha Ínsua, também conhecida como Bela Vista do Norte. A provável causa da diminuição da população indígena foi a própria Guerra do Paraguai, que os atingiu direta e indiretamente. Além das epidemias que grassaram as áreas atingidas pelo conflito, sobretudo as de varíola, iniciou-se a fase mais intensa de ocupação de não-indígenas do alto Paraguai, colaborando também para a expulsão dos índios de seus territórios tradicionais e a dispersão dos agrupamentos guató existentes na área.

A tabela abaixo ilustra a situação demográfica dos Guató nos dois últimos séculos.

Ano Região População Fonte
1809 Lagoa a Oeste do rio Paraguai aos 19º 12' de latitude 30 Azara
1825/ 1829 Alto Paraguai 300 Florece
1847 Rio Paraguai, desde a boca da Uberaba e no São Lourenço desde a barra do Cuiabá 400 Leverger
1848 Alto Paraguai, Ilha Ínsua, Paraguai-Mirim e São Lourenço 500 Ferreira
1894 Alto Paraguai 29 Koslowsky
1901 Ilha Ínsua 46 Schmidt
1978 Corumbá, Ilha Ínsua 220 Cruvinel
1984 Corumbá,  Ilha Ínsua, Bolívia,Rios São Lourenço, Pirigara e Vermelho, Miranda e Campo Grande 383 Cardoso
1995 Ilha Ínsua, Corumbá, Cáceres, fazendas e vilarejos da região pantaneira 700 FUNAI/PCBAP
2000 Rios São Lourenço/ Perigara  e Cuiabá* 72 José da Silva
2008 Mato Grosso do Sul 175 Fusana
2008 Mato Grosso 195 Funasa

* Não estão inclusos os Guató residentes em Poconé e Cuiabá (MT), registrados por Paula & Costa (2000).

Histórico do contato

Capitão Fernandez (Chico), com a família, Alto Paraguay, Terra Indígena Guató, Mato Grosso do Sul.
Capitão Fernandez (Chico), com a família, Alto Paraguay, Terra Indígena Guató, Mato Grosso do Sul.

A primeira referência que se conhece na literatura é de Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, que cita os índios Guató em passagens de seus Commentarios (1542), sobre uma expedição feita ao Mar de Xaraés no século XVI. Outros autores, como Guzman e Hervas y Azara, citaram os Guató em seus escritos ainda nesse século.

Em 1633, os Guató são mencionados entre as nações de “índios infiéis” a serem submetidos às pregações dos padres da Companhia de Jesus. Em El Paraguay Catolico, o padre Sánchez Labrador (1903) relata que alguns Mbayá-Guaikuru haviam lhe falado, em 1767, sobre os Guató, indígenas que cultivavam milho, abóbora, batatas e algodão em pequenas roças plantadas sobre “aterrados” – terrenos elevados artificialmente com conchas e areia para não serem inundados pelas enchentes.

Felix de Azara (1742-1821) narrou seu encontro com alguns Guató, habitantes de uma lagoa do lado ocidental do rio Paraguai. Este e outros viajantes, como Domingo Martinez de Irala (1509-1556) deixaram importantes registros históricos sobre esses índios.

As melhores imagens que se têm dos Guató do século XIX foram elaboradas por Hercules Florence (1941). Desenhista auxiliar da Expedição Langsdorff,  identificou os Guató vivendo às margens dos rios Paraguai e São Lourenço. Vinte anos depois, em 1845, outro francês, o naturalista Castelnau, visitou a mesma região e complementou as observações feitas por Florence.

Num documento, datado de 1848, intitulado Noticia sobre os índios de Matto Grosso, publicado no Album Graphico de Matto Grosso (1914), Joaquim Alves Ferreira localizou os Guató nos rios Paraguai e São Lourenço e nas lagoas Gaíba e Uberaba.

Os alemães Von Martius e Karl von den Steinen referem-se também aos Guató, em obras publicadas em 1867 e 1872, respectivamente. Couto Magalhães, presidente da Província de Mato Grosso durante a Guerra do Paraguai registrou, em 1876, a colaboração dos Guató ao Exército Brasileiro. Em 1889, Julio Koslowsky conviveu durante três semanas entre os Guató do alto Paraguai, publicando os resultados desta expedição em 1896 na Revista de Museo de la Plata. Em 1900, Henry Bolland  comandou uma expedição de medição de terras às regiões do alto Paraguai e das lagoas e baías, contribuindo decisivamente para o conhecimento geográfico do território guató.

Índia Guató da família do Capitão Fernandez (Chico), Alto Paraguay, Terra Indígena Guató, Mato Grosso do Sul.
Índia Guató da família do Capitão Fernandez (Chico), Alto Paraguay, Terra Indígena Guató, Mato Grosso do Sul.

É do início do século XX a mais completa expedição etnográfica realizada sobre os Guató. O alemão Max Schmidt ao longo de três viagens (1901, 1910 e 1928) estudou a história, os costumes dessa etnia e fez um vocabulário da língua Guató.

Entre o final dos anos 1940 e início da década de 1950, teve início um processo gradual de expulsão dos Guató de seus territórios tradicionais. O gado dos fazendeiros invadia as roças dos índios e os comerciantes de peles dificultavam a permanência dos Guató na ilha Ínsua e adjacências. Acuados, migraram para outros pontos do Pantanal ou se dirigiram para as periferias de cidades, tais como Corumbá e Dourados.

Os Guató foram considerados extintos pelo SPI (Serviço de Proteção aos Índios) até que no início dos anos 1970, missionários da equipe indigenista de Corumbá, atual Mato Grosso do Sul, identificaram alguns desses índios vivendo na periferia daquela cidade. Através deles foram localizados outros, vivendo em parte nos seus territórios tradicionais e ainda fazendo uso cotidiano da língua Guató. A Funai, então, deu início ao processo de identificação dos Guató, chegando a visitar os indígenas do rio São Lourenço/ Perigara, em Mato Grosso, contabilizando um total de vinte e dois indivíduos naquela localidade à época e no geral 243 indígenas. Desde as primeiras notícias que se têm (viajantes espanhóis que percorreram o alto Paraguai) foram mencionados como um grupo pacífico e, ao mesmo tempo, arredio aos contatos com não-indígenas.

A primeira expedição da Equipe Indigenista Missionária de Corumbá esteve entre os Guató do Núcleo Ilha Ínsua, em outubro de 1977. A segunda ocorreu meses depois, chefiada pelo auxiliar técnico de indigenismo, Jamiro Batista Arantes. A terceira, e mais importante do ponto de vista etnográfico até aquele momento, foi chefiada pelo servidor da Funai, o antropólogo Noraldino Vieira Cruvinel e durou dez dias (março de 1978).

Desterritorialização e reterritorialização dos Guató

Intensificação dos contatos

No início dos primeiros contatos entre índios e europeus no Pantanal, que ocorreram na primeira metade do século XVI, os Guató já estavam estabelecidos na região. Através de uma análise de documentos é possível constatar que além dos Guató havia outros grupos canoeiros na região, a exemplo daqueles que ficaram conhecidos na historiografia e na literatura etnológica como Guaxarapo e Payaguá. No entanto, muitos desses grupos, canoeiros ou não, gradualmente deixaram de ser citados na documentação histórica produzida a partir da segunda metade do século XVIII. Este é o caso dos Xaray contatados pelos espanhóis e paulistas na primeira metade do século XVI e na primeira do XVIII, respectivamente.

Por conta dos contatos entre índios e espanhóis não terem sido muito freqüentes no século XVI, ao menos na região do Pantanal, a documentação existente sobre isso também não é abundante.

Somente a partir da segunda metade daquele século, quando ocorreu um certo desânimo por parte dos conquistadores em relação à procura de metais preciosos na região, os contatos com os indígenas tornaram-se mais intensos e os índios passaram a ser alvos das encomiendas, ou seja, da captura de índios para mão-de-obra escrava na América Espanhola.

A documentação existente sobre o século XVII diz respeito, sobretudo, a fontes textuais produzidas por padres da Companhia de Jesus que atuaram em missões constituídas para o trabalho de catequese entre povos indígenas no Pantanal. Nessas fontes, muito pouco se encontrou sobre os Guató.

Para o século seguinte, visto que no início dos oitocentos os bandeirantes atingiram a porção setentrional da bacia do alto Paraguai, onde o Pantanal está inserido, e ali descobriram ouro no vale dos rios Coxipó e Cuiabá, os Guató passaram a ser citados em um número maior de documentos, desta vez não mais hispano-americanos, mas luso-brasileiros.

Juntamente com os conquistadores de São Paulo, os contatos interétnicos se tornaram mais intensos. Com eles, vieram doenças como varíola, catapora e sarampo, entre outras. Essas doenças foram responsáveis pela diminuição da população guató e de outros grupos que habitavam a região. A partir desses novos contatos teve início não apenas um processo de depopulação causado pela ação de agentes patogênicos de além-mar, mas também um gradual processo de desterritorialização do grupo. Mas o fato é que os Guató conseguiram resistir a diversas epidemias e também aos ataques dos bandeirantes e até mesmo de alguns grupos inimigos.

Uma das formas de resistência consistiu na manutenção de sua própria organização social, baseada em famílias nucleares e poligâmicas que entre si mantinham relações de parentesco, aliança e reciprocidade. Muitas dessas famílias constituíram parentelas que se deslocaram para locais menos acessíveis de seu imenso território, evitando assim os contatos mais duradouros com os não-índios, sobretudo evitando os conflitos bélicos com os paulistas.

Frentes de expansão econômica e espoliação das terras guató

Já no século XIX, iniciou-se a tomada e ocupação de seu território por não-índios, principalmente com a finalidade da criação de gado que estava se alastrando pela região. Os órgãos governamentais pregavam a existência de grandes vazios demográficos no Pantanal, ignorando a presença dos povos indígenas, na tentativa de atrair mais fazendeiros para o devassamento da bacia do alto Paraguai.

Nesse momento, as terras ocupadas pelos Guató se tornaram bastantes atrativas para a criação de gado, principalmente aquelas compostas de grandes campos nativos. Nesses campos, provavelmente os aterros indígenas passaram a ser os locais escolhidos para a construção de sedes de fazenda e currais de gado, por exemplo.

Entre 1864 e 1870, ocorreu a guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, durante a qual o antigo sul de Mato Grosso, que corresponde grosso modo ao atual Estado de Mato Grosso do Sul, foi uma das mais regiões mais afetadas. Essa região foi a primeira a ser invadida pelos paraguaios, em fins de 1864. Nesse episódio, diversos grupos étnicos, como os Guató, passaram a manter um contato intenso com os soldados brasileiros, chegando inclusive a lutar e a servir como guias durante a guerra. A partir desse conflito, o grupo sofreu nova deflação populacional devido ao alastramento de varíola. Com essa depopulação foi mais fácil concluir a espoliação de territórios indígenas para transformá-los em fazendas de gado.

Após o termino da guerra, uma nova frente de ocupação econômica da sociedade nacional atingiu a região. Esta frente estava constituída de soldados, tanto brasileiros como paraguaios, que não retornaram a sua região de origem. Também ocorreu a volta de muitos fazendeiros que haviam fugido das tropas invasoras e depois retornaram para a região. Via de regra, essa frente teve na pecuária sua atividade econômica mais importante. Dessa forma, mais uma vez os Guató passaram a ter suas terras espoliadas por não-índios

Ilha Ínsua, o último refúgio?

A solução encontrada por muitas famílias indígenas foi procurar refúgio em áreas de difícil acesso para os criadores de gado. Uma dessas áreas foi a Ilha Ínsua ou Bela Vista. Outras famílias permaneceram em seus territórios, resistindo de diversas maneiras, inclusive trabalhando nas fazendas de gado com a finalidade, também, de continuar mantendo vínculos tradicionais com seu território.

No entanto, no limiar do século XX, a Ilha Ínsua também passou a ser alvo de invasões por parte de novos fazendeiros, os quais soltavam o gado para destruir as plantações das famílias indígenas, assim como muitos dos recursos naturais ali disponíveis. Nessa época, a mobilidade espacial dos Guató parece ter sofrido alguma diminuição, pois eles já não mais dispunham de um imenso território para nele se locomover e viver de acordo com seus usos, costumes e tradições. Também a agricultura paulatinamente parece que passou a ter mais importância na economia do grupo, embora atividades ligadas à coleta, à caça e à pesca ainda fossem de grande relevância no que se refere à subsistência das famílias.

Anos mais tarde veio a proibição, por parte do governo brasileiro, da caça e da pesca no Pantanal, cuja fiscalização ficou por conta do antigo INAMB. Essa fiscalização muitas vezes confundiu os Guató com coureiros, isto é, com caçadores clandestinos de animais e vendedores de peles. Por conta disso, muitos índios acabavam presos e castigados como criminosos, pois os fiscais ignoravam que animais como o jacaré e a capivara, por exemplo, faziam parte da alimentação tradicional do grupo e, na maioria dos casos, não eram abatidos para fins comerciais.

Na Ilha Ínsua, muitos Guató que não aceitaram trabalhar para os fazendeiros foram ameaçados de morte e expulsos do lugar. Muitos se viram obrigados a migrar para as cidades em busca de uma vida melhor, sendo posteriormente declarados como extintos. Além disso,  cidades como Corumbá acabaram exercendo certa atração para famílias que então estavam sendo expulsas de seus territórios.

Desterritorialização

A partir 1957, os Guató passaram a ser considerados extintos e foram ignorados por parte dos órgãos governamentais. Muitas famílias foram viver na periferia de cidades como Corumbá, Ladário, Aquidauana, Poconé e Cáceres, dentre outras. Foram poucas as famílias que continuaram a viver na Ilha Ínsua.

Algumas famílias permaneceram na ilha por conta da intervenção do Ministério do Exército no sentido de instalar uma base militar na área, o que ocorreu em fins da década de 1950. Posteriormente, o Exército entrou com uma demanda judicial requerendo a posse da ilha na Justiça Federal. Como o fazendeiro instalado na região não possuía nenhum documento que comprovasse ser proprietário da área, a Justiça Federal concebeu ao Exército a posse regularizada do lugar. Porém, como o Destacamento de Porto Índio só ocupava parte da ilha, a outra ficou arrendada ao fazendeiro que continuou a criação de gado iniciada pelo seu sogro, ao mesmo tempo em que algumas famílias seguiam instaladas na localidade.

Enquanto isso, os Guató continuavam em seu estado de extinção até o ano de 1976, quando a irmã salesiana Ada Gambarotto encontrou, em Corumbá, com a dona Josefina, filha de uma Guató com um não-índio. Irmã Ada Gambarotto, juntamente com a Pastoral Indigenista e outras entidades de apoio à causa indígena, comprovaram a existência dos Guató; organizaram excursões e descobriram que eles estavam em maior número do que se imaginava. Somou-se a esse grupo de apoio a lingüística Adair Pimentel Barbosa, quem passou não apenas a estudar a língua guató, mas a atuar em defesa dos direitos do grupo.

Assim, o grupo começou a se reorganizar, a realizar reuniões e atividades para levar até sociedade civil organizada os problemas por eles vividos. Os Guató passaram a lutar pelo seu reconhecimento étnico.

Luta por reconhecimento étnico e reterritorialização

Nesse contexto, a atuação da Funai iniciou-se no ano de 1977, com a comprovação da existência dos Guató. A partir daí, algumas expedições foram organizadas pelo órgão indigenista oficial e pela Pastoral Missionária Indigenista, culminando com o reconhecimento da área como terra de ocupação tradicional indígena.

Começou, então, a luta pela Ilha Ínsua, visto que o local pertencia ao Exército e, se fosse declarada como área indígena, nenhum não-índio poderia habitar o local, nem mesmo o Exército, que alegava tratar-se de uma área de segurança nacional, pois a ilha está localizada na fronteira Brasil-Bolívia.

Essa disputa judicial, entre o Ministério do Exército e a Funai, perdurou durante anos, até o momento em que ambos acertaram um acordo. Por meio desse acordo ficou acertado que Exército permaneceria em uma parte da ilha e os Guató em outra.

Foi assim que os Guató conseguiram de volta uma parte de seu território de ocupação  tradicional. A partir daí eles seguiram reorganizando sua cultura no contexto de um complexo processo de reterritorialização, o qual ainda está em curso.

Processo de demarcação da TI Guató

A “redescoberta” dos Guató deu início a uma luta pela recuperação do território tradicional desse povo, especialmente da ilha Ínsua, situada entre as baías Gaíba e Uberaba. Várias viagens foram feitas por servidores da Funai à região habitada pelos Guató, tendo sido produzidos significativos relatórios datados de 1977, 1978 e 1984. Este último objetivou o estudo de Identificação e Levantamento Ocupacional, a fim de delimitar a Área Indígena Guató. Neste relatório, foram apresentados dados sobre toda a região do Pantanal, incluindo os que habitavam as cidades de Corumbá, Miranda e Campo Grande, na localidade boliviana de Campo de Mayo e várias localidades situadas nos Rios Paraguai, Cuiabá, São Lourenço, Vermelho e Pirigara. Os descritos no último local são os mesmos moradores da área localizada no Aterro São Benedito (São Lourenço/ Perigara).

O processo de identificação da TI Guató teve, porém, o interesse explícito de reunir na ilha Ínsua todos os grupos familiares espalhados pelo Pantanal, motivo pelo qual nunca foi levada em conta a situação fundiária dos outros núcleos conhecidos. Efetivamente, havia o interesse de alguns grupos de se transferirem para a ilha Ínsua, especialmente aqueles que se encontravam desaldeados em Corumbá (todos originários de lá) e que viviam em situação de miséria na periferia da cidade. Contudo, os relatórios de identificação reconhecem a existência tradicional de três grupos locais distintos entre os Guató: o grupo que vive nas margens do alto Paraguai, aquele que habita a região das lagoas Gaíba e Uberaba e o que reside no baixo rio São Lourenço (Schmidt, 1942). Informações históricas indicam que a relação entre esses grupos nem sempre foi amistosa.

A “intenção de aglutinação” na ilha Ínsua, embora se constitua como um fenômeno necessário à sobrevivência (como é o caso do grupo dos rios São Lourenço/ Perigara e Cuiabá), deve ser considerado dentro dos limites das relações de parentesco e de distanciamento histórico e geográfico. Assim, ainda que os Guató dos rios São Lourenço/ Perigara e Cuiabá tenham conhecimento da existência de outros Guató na região do Caracará, com eles não tiveram muito contato e afirmam não terem a intenção de sair da área onde vivem hoje. Os Guató sempre ocuparam uma extensa faixa de terras pantaneiras, englobando as bacias dos rios Paraguai, São Lourenço e Cuiabá.

Organização social

Família do Sr. Rosauro Guató, em frente à casa, na aldeia Uberaba. Foto: Suki Ozaki, 2006
Família do Sr. Rosauro Guató, em frente à casa, na aldeia Uberaba. Foto: Suki Ozaki, 2006

As famílias guató viviam de forma autônoma, isoladas umas das outras. Dentro da família, havia a distribuição de tarefas: cabia ao homem a confecção de equipamentos de caça e pesca, a realização da coleta, da pesca e da caça e também a preparação dos alimentos; à mulher cabia fazer panelas e outros utensílios de barro, levar as canoas pelos rios e tecer. Os trançados eram feitos por ambos os sexos e as crianças, conforme o sexo, ficavam a serviço dos pais. A organização social era patrilinear e a residência dos recém-casados, patrilocal. Em geral, os Guató eram polígamos e cada onça caçada poderia dar ao homem o direito à uma esposa, sendo este um ritual de passagem da adolescência para a vida adulta.  

Família de Dona Verônica Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006
Família de Dona Verônica Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006

Para os Guató, matar onças, especialmente onças-pintadas ou mepago, significava derrotar um animal muito mais forte que o homem, demonstrar coragem, domesticar as paisagens, obter troféus de caça, conquistar prestígio no interior do grupo, além de provar ser capaz de defender e trabalhar para o sustento de sua futura família. Por isso mesmo, em alguns assentamentos guató foram encontrados vários crânios de felinos amontoados na parte da frente das casas, assim estando como troféus expostos aos visitantes (Oliveira, 2002).  

Verônica Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006
Verônica Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006

O contato entre os diferentes grupos locais (alto Paraguai, São Lourenço e Ilha Ínsua) se dava fundamentalmente por meio das alianças matrimoniais que se realizavam durante o período das cheias – as festas da chicha de acuri –, provavelmente na Ilha Ínsua, considerada o centro do universo, portanto, território sagrado. Dessa forma, fortaleciam a união e a identidade social do grupo. Ainda sobre a organização social registrada pelos primeiros viajantes, além da referência aos três grupos locais citados, destacava-se a existência de uma chefia em cada uma dessas unidades, a partir de uma linha de germanos do sexo masculino, prevalecendo a liderança do irmão mais velho.

Os Guató são típicos representantes de grupos canoeiros que se estabeleceram nas áreas inundáveis do Pantanal mato-grossense. As estratégias de ocupação desse espaço estão relacionadas a fatores culturais e ecológicos importantes para a subsistência do grupo, sendo que cada família depende da sua capacidade de obter autonomamente os recursos necessários para sua sobrevivência. Por outro lado, a diversidade biológica que caracteriza a área guató favorece a exploração de uma gama de recursos faunísticos e florísticos, através das atividades de caça, pesca, coleta e cultivo. Ainda nesse aspecto, cabe ressaltar a importância dos aterros para a agricultura e para a própria identidade étnica do grupo.

Maria Vasques, artesã Guató. Foto: Giovani José da Silva e Giani Ramona da Silva
Maria Vasques, artesã Guató. Foto: Giovani José da Silva e Giani Ramona da Silva

Oliveira aponta os aterros “como os principais vestígios materiais das manifestações culturais que ocorrem nas áreas inundáveis da região. São testemunhos materiais de um tipo de estratégia de sobrevivência característica dos grupos canoeiros que ocuparam o Pantanal” (1996: 150).

Assentamentos

De acordo com os próprios Guató, eles possuem três tipos básicos de assentamentos, sendo todos relacionados a áreas ecológicas próximas a cursos d'água: “aterro” ou marrabóró, “beira de rio” ou modidjécum e “beira de morraria” ou macaírapó.

A ocupação desses assentamentos está diretamente relacionada a três fatores cultural e ecologicamente importantes para a subsistência desse grupo, essencialmente canoeiro: 1) sazonalidade (períodos de seca e cheia); 2) forma de organização social (famílias autônomas); 3) grande mobilidade espacial (fluvial).

Os assentamentos marrabóró podem ocorrer nas matas ciliares, nos campos limpos, sob forma de capões-de-mato ou cordilheiras, e também nas margens de baías, banhados e rios. Os aterros, marrabóró, são os mais importantes para as famílias e são ocupados principalmente no período da cheia.

Os assentamentos modidjécum estão relacionados com a vegetação da mata ciliar. Normalmente são ocupados na seca, podendo ficar parcial ou totalmente inundados durante a cheia e em alguns casos podem corresponder arqueologicamente a aterros.

Já os assentamentos macaírapó, apesar de serem os mais protegidos das inundações, e talvez os mais aptos para o cultivo, normalmente são ocupados na seca. Isto porque durante o período da cheia, quando os campos são inundados, aumenta a mobilidade dos Guató, tornando possível a maior exploração de outras áreas ecologicamente mais aptas para a subsistência. É nesse período que também ocorre a confraternização com outras famílias que habitam locais mais distantes, revitalizando assim os laços que mantém a união e a identidade social do grupo.

Na documentação histórica e na literatura etnológica há várias informações que comprovam a existência de assentamentos sazonais dos Guató. Fica evidente que esses índios canoeiros possuíam, ao menos, dois tipos de assentamentos relacionados à sazonalidade do ambiente: 1) nas margens dos rios durante a seca; 2) em outras áreas protegidas das inundações, durante a cheia.

Rondon (1949) manteve contato com os Guató entre 1900 e 1906, durante os trabalhos da “Comissão de Linhas Telegráficas do Estado de Mato Grosso”. Esteve num aterro parcialmente destruído pela ação das águas, conhecido como “Aterradinho do Bananal”, situado à margem direita do rio São Lourenço, a duzentos metros para dentro, que servia de sede a um retiro da Fazenda Rio Novo. Apesar de sua localização ser pouco precisa, Rondon explica que o aterro deve ter sido erguido pelos Guató no intuito de se protegerem das cheias. Mas Rondon não é o único a apresentar este tipo de informação. Florence (1948), antes mesmo de Rondon, relata que no dia 8 de janeiro de 1827 a expedição Langsdorff atingiu o citado aterro, também conhecido simplesmente como “Bananal” devido à grande quantidade de bananeiras plantadas.

Rondon define os “aterrados” guató como: “um monchão artificial, onde escasseavam os firmes, no Pantanal, os Guatós faziam aterrados, amontoando, no ponto escolhido, a terra que tiravam dos arredores” (1938: 259).

Nos trabalhos de Schmidt há maiores esclarecimentos sobre os assentamentos guató, em especial sobre os marrabóró [aterros]. Em 1901, Schmidt verificou que os marrabóró são semelhantes a sambaquis, porque apresentam grande quantidade de moluscos aquáticos. Posteriormente, o autor encontrou vários aterros ao longo do curso do rio Caracará, e se refere a eles como “lugares de descanso”, isto é, assentamentos temporários, às vezes por uma única noite, utilizados durante o período da cheia, quando os Guató abandonam os locais onde permanecem estabelecidos na seca. Explica que os aterros são facilmente reconhecíveis, pois possuem forma elíptica e uma densa vegetação que os destaca no ambiente (Schmidt, 1912).

Os Guató disseram a Schmidt que os Matschubehe ou Matsubehe foram os responsáveis pela construção dos aterros, e também pelas plantações de banana que neles são encontradas. Mas foram expulsos da região pelos próprios Guató.

Foi possível constatar que na mitologia guató os Tchubé aparecem como o grupo que lhes ensinou a técnica de construir aterros, mas que, em contrapartida, também aprendeu com os Guató a utilizar a canoa nos pantanais. Dessa maneira, nem todos os aterros ocupados recentemente pelos Guató foram construídos por eles, uma vez que há alguns que foram construídos e ocupados anteriormente pelos Tchubé, seus aliados.

O fato é que os Guató explicam os aterros como resultado da ação antrópica, de um trabalho coletivo sob a coordenação do chefe. Toda vez que um jovem guató se casava e não dispunha de um aterro para morar, o chefe se encarregava de organizar as pessoas e coordenar os trabalhos para a construção de um novo marrabóró. Em tempos recentes, havia aterros suficientes para todos, por causa da diminuição da população.

Os aterros eram construídos durante o período da seca, através do transporte, em cestos cargueiros, de sedimentos, conchas de gastrópodes aquáticos e de bivalves, de pontos mais baixos para locais naturalmente elevados - que podem ser elevações de origem aluvial. As conchas são importantes porque, além de dar maior volume, firmam a terra contra a ação das águas. Os Guató explicam que grande parte das conchas encontradas nos extratos dos seus aterros constitui material de construção ou foram ali depositados pela ação de animais.

Para melhor proteção contra a ação das águas, plantavam nas bordas dos aterros acuris ou mudjí (Scheelea phalerata), espécie de palmácea de grande valor para a subsistência dos Guató. No decorrer da ocupação dos aterros, normalmente durante a cheia, ali são depositados os seus lixos, como cacos de vasilhas cerâmicas que quebraram e ossos de diversos animais que serviram como alimento. Também poderiam servir de locais para sepultar os mortos.

Cada aterro ocupado pertence a uma determinada família e é conhecido pelo nome de seu patriarca: “aterro do capitão Fernandes”, “aterro do João Quirino”, “aterro do Joaquim” etc. Na morte do patriarca, o aterro passava a pertencer a seus descendentes.

Mais de uma família poderia ocupar, eventualmente, um mesmo aterro por um certo tempo, comumente respaldadas pela consangüinidade. Por outro lado, caso o aterro não estivesse sendo ocupado durante um determinado período devido à mobilidade sazonal das famílias, poderia ser momentaneamente ocupado por outras famílias, às vezes por uma única noite de descanso no decorrer de uma longa viagem. Dessa forma, nota-se a existência de uma continuidade das ocupações dos marrabóró.

Em suma, os três tipos de assentamentos guató - marrabóró, modidjécum e macaírapó - refletem uma adaptação sazonal relacionada à ocupação de áreas inundáveis que, por sua vez, implica, entre outros fatores, na maior exploração de determinados recursos naturais durante períodos distintos, seca e cheia.

Quanto à origem dos aterros, a explicação mais pertinente é a de que eles realmente foram formados por um conjunto de fatores de ordem natural e antrópica, como bem explicam os próprios Guató. Atestam uma forma de manejo do ambiente relacionado à subsistência, ao assentamento e à demografia do grupo. São ocupados, principalmente, durante a cheia.

Estruturas de habitação

Casa tradicional Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006
Casa tradicional Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006

Ao contrário de outros grupos, os Guató não possui casa-aldeia, mas habitações que podem ser classificadas como abrigos provisórios e casas permanentes, que servem basicamente para abrigar as famílias diante de fatores climáticos, como a chuva.

Os abrigos provisórios e as casas permanentes podem ter um mesmo padrão de estrutura, que pode ser interpretado como o da casa tradicional guató, chamada movír (Schmidt, 1942).

As habitações foram descritas, geralmente de maneira simplificada, por vários viajantes e cronistas, a partir da primeira metade do século XIX. Em sua maioria, apresentam semelhantes considerações, tais como: “cabanas mal construídas” (Macerata, 1843); “tosco barracão” (Castelnau, 1949); “pequenos ranchos de ramagens, que fazem a pressa quando os ameaça a chuva” (Beurepaire-Rohan, 1869); “pequenos ranchos em que dormem abrigados do tempo” (Leverger, 1862); pequenos e baixos ranchos construídos de galhos, paus e folhas de palmeiras, que são “apenas suficientes para abrigá-los do sol e da chuva” (Ferreira, 1993); pequenas cabanas com ramos de árvores e folhas de palmeiras, somente para protegerem-se do sol e da chuva (Moure, 1862); habitações muito rudimentares, um simples pára-vento com teto de folhas de palmeiras sobre quatro esteios (Monoyer, 1905).

O abrigo provisório apresenta uma construção de estruturas improvisadas, basicamente com equipamentos de uso doméstico e de subsistência. É menos elaborado que a casa tradicional e possui pequenas dimensões. Serve para uma família passar a noite ou descansar por alguns poucos dias. Quando os Guató mudam de lugar, este tipo de abrigo é desfeito.

A duração da casa tradicional guató varia conforme o tipo de madeira utilizada, podendo durar vários anos. São construídas com madeiras encontradas no próprio local do assentamento ou nas proximidades. As casas permanentes duram mais tempo e são construídas com madeiras de melhor qualidade, ou seja, aquelas mais resistentes à ação do tempo, como a de aroeira, sendo necessário substituir com mais freqüência a cobertura feita de palmas de acuri e os enlaces feitos com vários tipos de cipós, como o imbê. As casas tradicionais que funcionam como abrigos provisórios, podem ser construídas com madeira de qualidade inferior.

O número de casas num dado local de assentamento está relacionado com o tamanho da família, e as evidências de suas estruturas podem ser detectadas em escavações arqueológicas. Em decorrência do contato com a sociedade nacional, os Guató também passaram a construir casas com outros tipos de estruturas, como a de pau-a-pique.

Atividades produtivas

Mirian Guató, cozinhando na Bolívia. Foto: Suki Ozaki, 2006
Mirian Guató, cozinhando na Bolívia. Foto: Suki Ozaki, 2006

Os Guató viviam tradicionalmente da pesca, da caça, da coleta e da agricultura. Como ocupavam uma grande área, conseguiam tirar o seu sustento dentro dos limites de suas próprias terras. A pesca era realizada na canoa durante o ano inteiro e por todos os membros da família. Usavam o arco e a flecha e preferiam o pacu. A caça era realizada com arco e flecha, armadilhas, bodoques e zagaias e as presas eram as mais variadas espécies de animais, sendo a mais apreciada o jacaré. A coleta era diversificada, destacando-se a do arroz-do-pantanal ou arroz-bravo, espécie nativa colhida nos períodos de cheias. Muitas frutas eram apreciadas, especialmente acuri, forno d’água e sitobá (situpá).

A palmácea acuri era essencial, pois era explorada de várias maneiras: retiravam chicha confeccionavam utensílios, além de aproveitarem o fruto na alimentação. Hoje serve, sobretudo, para a cobertura das casas dos Guató.

Embora, na documentação histórica, muitos autores afirmem categoricamente que o cultivo teve pouca relevância como atividade de subsistência entre os Guató, sabe-se muito pouco sobre o cultivo entre esses índios e por isso não é possível afirmar de antemão que seja uma atividade menos importante que a pesca, a caça e a coleta. Sabe-se da existência do cultivo de milho, cará, mandioca, abóbora, banana, cana-de-açúcar, algodão e fumo. O cultivo poderia ser feito no início do período chuvoso, antes das famílias abandonarem temporariamente seus assentamentos mais fixos, com a chegada da cheia.

Quanto às atividades produtivas da atualidade, os Guató pescam, caçam, coletam e praticam a agricultura, ainda que essa última seja incipiente. Fazem uso de espingarda na caça, mas utilizam o arco e a flecha tanto para caçar, quanto para pescar. Em Mato Grosso, não havia, no exíguo espaço em que habitavam, madeira para a confecção destes utensílios e muito menos para fabricação de canoas, remos ou zingas. No período em que não estão pescando, fazem a coleta de iscas, que são guardadas em depósitos (valas). As mulheres também apanham iscas e ajudam no cultivo. As pousadas procuram pelos índios para a pilotagem de barcos nos rios e corixos da região do São Lourenço/ Perigara, Cuiabá, São Benedito, Mascate, Três Irmãos, Ichuzinho e para a coleta de iscas. Os índios Guató afirmam que a situação fica difícil quando a temporada de pesca está fechada. Nesse período (de novembro a março), cuidam das roças, com a ajuda das mulheres, que além de cuidarem da casa e das crianças, fazem cerâmica.

No tempo das águas (cheia), a principal atividade é a pesca e no tempo da seca, a agricultura e a criação de iscas. Há problemas com a polícia ambiental, que não permite a pesca e nem a criação de iscas fora de temporada. Na piracema, a pesca tem que ser feita nos barrancos e não nos barcos e o limite diário é de cinco quilos por pessoa. A coleta do mel é realizada para a venda, sendo este um produto bastante procurado por turistas. O período bom para a atividade, segundo os índios, é a partir de outubro, durante o tempo das águas.

A percepção guató de tempo e espaço está intimamente relacionada aos ciclos de seca (de junho a novembro) e de águas (de dezembro a maio). O ciclo lunar é respeitado, havendo “luas boas” para a pesca. Os ventos também são observados, especialmente na época da caça.

Na seca, fica mais fácil coletar iscas e a caça é realizada indistintamente, tanto no período seco quanto na época das águas. O tempo das águas é bom para pescar e também quando há muitas frutas madurando (marmelo, roncador, goiabinha etc.). Sinais deixados ou emitidos por animais, tais como o jacaré, a capivara e o quá (espécie de pássaro) são interpretados como mudanças de clima, de direção dos ventos etc. – revelando a intensa relação desses índios com o ambiente que os circundam. As crianças, desde a mais tenra idade, já estão absolutamente familiarizadas com as canoas e, não raro, estão a conduzi-las pelos rios, baías e corixos.

Cultura material

A cultura material guató compreende basicamente equipamentos de subsistência (arcos, flechas, bodoques, zagaias, canoas, remos e zingas, artefatos líticos, armadilhas para caçar, pau de cavouco, porrete para pesca) e equipamentos domésticos e de trabalho - objetos em madeira, em conchas de moluscos, em cerâmica, em couros, trançados e tecelagem. Parte dessa cultura material é produzida nos dias de hoje, ainda com dificuldades, tanto pelo grupo que reside no Mato Grosso quanto pelos Guató que vivem no Mato Grosso do Sul.

(Giovani José da Silva)

Canoas

Canoa Guató à beira da baía Uberaba, Ilha Ínsua, Terra Indígena Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006
Canoa Guató à beira da baía Uberaba, Ilha Ínsua, Terra Indígena Guató. Foto: Suki Ozaki, 2006

A canoa manum é o principal meio de transporte dos Guató, especialmente na cheia, a tal ponto que as pernas dos homens são pouco desenvolvidas e arqueadas para dentro, enquanto o tronco permanece notadamente mais desenvolvido por causa da atividade de remar.

Moure (1862) relata que muitas vezes as famílias passam a noite em suas próprias canoas, que são fabricadas com uma rara perfeição, e possuem notável elegância e rapidez. A mulher é responsável por governá-la, permanecendo na popa. Quando toda a família está embarcada, a borda da canoa fica alguns centímetros acima d'água, o que não impede o uso do arco e flecha para pescar e caçar (Florence, 1948).

Sr. Bartolomeu Guató na canoa. Foto: Suki Ozaki, 2006
Sr. Bartolomeu Guató na canoa. Foto: Suki Ozaki, 2006

O processo de fabricação da canoa implica na escolha da madeira apropriada, que deve ser mole, leve e flutuante, geralmente cambará. A proa ou eopígagá possui forma cônica e a popa ou hihe é mais larga para servir de assento (Schmidt, 1942).

Para uma melhor conservação da canoa contra a ação da água ou de brocas (insetos), quando necessário, deve-se retirá-la da água, erguê-la em estruturas de madeira para, em seguida, atear fogo por baixo, retirando a água que penetra nos poros da madeira. A impermeabilização era feita através do processo de defumação da canoa, lubrificando-a concomitantemente com gordura animal, geralmente retirada de capivara ou jacaré.

Os remos ou macum normalmente são feitos de caneleira, também conhecida na região pela sinonímia de “loro”. Koslowsly (1895) menciona que o tamanho dos remos pode variar, mas os mais usados possuem pás lanceoladas que medem 70 centímetros de comprimento por 26,5 centímetros de largura. Schmidt (1942) menciona remos grandes com 2,5 metros e remos infantis com 84 centímetros de comprimento.

A zinga ou madyuada, por sua vez, é uma vara comprida usada na propulsão da canoa em lugares pouco profundos, feita de caneleira.

Cerâmica

A respeito do estilo cerâmico guató, a produção de vasilhas deixou de existir mais ou menos entre 1960 e 1970, dependendo do grupo doméstico e da região ocupada, momento em que as panelas de ferro e de alumínio definitivamente substituíram as tradicionais de barro. Hoje em dia apenas cachimbos de barro são feitos por alguns homens e mulheres da ilha Ínsua e do baixo São Lourenço, sendo esta uma tradição não mantida pelos jovens. Com base nos dados etnográficos e  nas informações orais, é possível afirmar que o vasilhame guató, cuja produção era uma atividade exclusiva de mães e filhas durante todo o ano, caracteriza-se por ser essencialmente de uso doméstico, destinado a preparar, armazenar e servir alimentos sólidos e líquidos.

A argila, de cor escura, era retirada das margens de rios e lagoas, geralmente com o auxílio de uma pá de remo ou de outro artefato apropriado, depositada no interior das canoas e levada para os assentamentos, onde era trabalhada do lado de fora das casas: as mulheres retiravam todas as impurezas do barro, principalmente pequenas raízes de plantas, e adicionavam como tempero cacos moídos e peneirados e às vezes conchas trituradas de caramujos e bivalves; a argila era amassada em barrigadas ou couraças de jacarés sob forma de gamela ou sobre esteiras de fibras vegetais até adquirir homogeneidade e consistência; depois eram feitos cordões da pasta preparada, colocados uns sobre os outros e gradativamente manipulados com as mãos até atingir a forma e o tamanho desejados.

O alisamento interno e externo em geral era feito com o auxílio de uma concha de bivalve ou, menos freqüentemente, com algum seixo rolado; a secagem do vasilhame era feita à sombra para posteriormente levá-lo à queima, a qual quase sempre era processada pela colocação de algumas vasilhas juntas e cobertas com lenha; havia um controle para evitar a entrada de ar e a diminuição da temperatura, através da colocação de mais madeira ao redor e sobre as vasilhas, caso necessário; depois de pronta, a cerâmica adquiria uma coloração inicial avermelhada e, ao ser levada ao fogo para o preparo de alimentos, gradativamente passava a ter uma cor mais escura, entre tons de cinza e preto.

Três tipos básicos de vasilhas eram tradicionalmente produzidos: panelas pequenas ou mudikô´vaí, tigelas/pratos ou muchá/muchá´tum e bilhas d´água ou matum/matum´ve.

Trançado

O trançado guató é uma atividade masculina. Os Guató utilizam basicamente a palha da palmeira acuri (Scheelea phalerata) em seus trançados, sendo que o dos cestos é geralmente do tipo xadrezado, enquanto que o das esteiras pode ser do tipo sarjado. Fabricam, principalmente para uso e conforto doméstico, esteiras de dormir feitas de acuri, denominadas mádaakúts'i, e feitas de taboa (Typha dominguensis) chamadas de miró, além de abanos para fogo ou tiakanatá. Como meio de transporte de carga fabricam cestos ou mu(n)dá.

Através da tecelagem os Guató fabricam, com fibra de tucum (Bactris glaucescens) e para o conforto pessoal, abano de mosquito ou mapara e, de maneira mais apurada, seguindo a técnica do entretorcido, mosquiteiro ou mageetó - que também foi descrito por Silva (1930). Ambos são indispensáveis para a região devido à quantidade de mosquitos que ocorrem em certas épocas do ano. Com algodão fabricam abano de mosquito ou mapara e ligadura para pulso ou mavaerúta.  

(Jorge Eremites de Oliveira)  

Rituais

Ritos funerários

Os Guató geralmente sepultavam seus mortos em locais específicos e protegidos das cheias, mas não muito próximos dos assentamentos mais fixos, aqueles utilizados na seca.

Os mortos eram enterrados em valas estendidos sobre uma esteira. Quando morria um Guató, havia apenas o seu enterramento e o lamentar de sua perda. O luto era restrito às mulheres, que deixavam o cabelo muito curto quando perdiam o marido. Quando morria um filho, a mãe cortava seu cabelo pela metade do comprimento.

(Jorge Eremites de Oliveira)

Festas

Nas festas, consumia-se o vinho da palmeira acuri também conhecido como chicha e realizavam o cururu: faziam uma roda e dançavam durante várias horas ao som da viola de cocho e do caracaxá (ganzá). Ainda hoje, a viola de cocho (sendo que antigamente era utilizada corda de tripa de bugio na viola) e o caracaxá (ganzá) acompanham e animam as festas guató.

(Giovani José da Silva)

Nota sobre as fontes

É do início do século XX a mais completa expedição etnográfica realizada sobre os Guató. O alemão Max Schmidt ao longo de três viagens (1901, 1910 e 1928) estudou a história, os costumes dessa etnia e fez um vocabulário da língua Guató. Além disso, descreveu detalhadamente os objetos que compunham a cultura material desses índios (cerâmica, trançados, cordões e tecidos, adornos, instrumentos musicais, armas e utensílios domésticos) Seus estudos foram publicados em livros e revistas especializadas.

Posteriormente, o polonês Estanislao Pryjemski, taxidermista colaborador do Museu Nacional do Rio de Janeiro, do Instituto Manguinhos e do Instituto Butantã, conviveu com os Guató entre as décadas de 1930 e 1950. Os registros deixados por este pesquisador ainda não foram devidamente estudados e parte de suas memórias encontra-se num artigo de autoria do jornalista Mário Ramires, publicado pela revista MS Cultura (1987).

Há, até o momento, poucas pesquisas em Antropologia sobre os Guató. No entanto, existem os trabalhos desenvolvidos pelo arqueólogo Jorge Eremites de Oliveira (1995; 2002), que pesquisou sobre os assentamentos e a subsistência dos Guató e sua cultura material e, posteriormente, realizou uma pesquisa sobre o antigo processo de ocupação indígena das terras baixas do Pantanal. Em 2005, a historiadora Marilene da Silva Ribeiro defendeu na Universidade Federal de Dourados sua dissertação de mestrado.

Na área de lingüística, há o estudo de doutorado de Rosângela Aparecida Ferreira Lima, Dando a palavra aos Guatós: alguns aspectos sociolingüísticos (2002). O trabalho de maior consistência sobre o referido idioma é a tese de doutorado da professora da Universidade Federal de Pernambuco, Adair Pimentel Palácio, defendida na Universidade Estadual de Campinas em 1984.

Além destes, há pelo menos dois trabalhos em andamento, um de autoria da pesquisadora Margareth Araújo e Silva sobre a Educação Escolar entre os Guató (doutorado em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e outro, de Adriana Viana Postigo sobre a fonologia da língua Guató (mestrado em Letras da UFMS).

A pesquisa antropológica mais recente sobre os Guató é de Giovani José da Silva que, entre 2000 e 2003, esteve envolvido no processo de identificação e delimitação da TI Baía dos Guató, realizado pela Funai. Atualmente, o pesquisador é consultor da escola estadual indígena “João Quirino de Carvalho” – Toghopanãa.

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