"Nós queremos não só morar, mas preservar"

Thiago Henrique Karai Djekupe, liderança da Terra Indígena Jaraguá (SP), fala sobre a luta dos Guarani por seu território, cuja portaria declaratória foi recentemente anulada, e sobre como eles vivem e se relacionam com a terra.

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Thiago Henrique Karaí, liderança guarani da Terra Indígena Jaraguá, no município de São Paulo (SP). Foto: Luzia Calagian, 2017.

Meu avô sempre falou, desde quando ele veio para essa área [Terra Indígena Jaraguá, no município de São Paulo], que é uma área tradicional. Bem antes de o parque existir, antes de os colonizadores invadirem. O Pico do Jaraguá, por ser o ponto mais alto da capital paulista, sempre foi um ponto de referência para os indígenas que passavam pela região.

Conquistamos essa demarcação em 1987 e ainda não tinha a Constituição Federal [de 1988]. Quando veio a Constituição, passou-se a garantir a demarcação do território tradicionalmente ocupado – e não só onde nós estamos confinados com moradia. Isso foi o que não aconteceu na nossa demarcação de 87. A Funai só levou em consideração a área em que nós estávamos confinados, privilegiando os grileiros, as pessoas que tinham interesse na área (pra fazer sítio, esse tipo de coisa). Mas, mesmo tendo só um pedacinho de terra demarcada, a gente sempre protegeu todo o Pico do Jaraguá. A gente sempre entendeu como um território sagrado. Nunca perdemos a história.

Quando vem a Constituição em 1988, nós deixamos de ser tutelados e passamos a poder reivindicar os nossos direitos. Nós começamos a lutar para que houvesse uma atualização de limites e para que fosse demarcado o que realmente determina a Constituição, para que toda a área de ocupação tradicional fosse respeitada. A área de plantio, a área onde vamos buscar os remédios, onde vamos buscar argila, a área em que se ensina para as crianças sobre a caça, sobre a mata – toda essa área tem que ser protegida.

Houve, então, o processo de demarcação. O que acontece é que o governo não entende que nós estamos aqui antes do Estado, estamos antes do Parque Estadual (PES). A gente não quer morar dentro do parque, a gente não quer viver dentro do parque. A gente quer proteger com a nossa ocupação tradicional, que é de poder circular, poder rezar, cuidar das plantas e da mata. Então, parte da nossa demarcação é área sobreposta com o PES do Jaraguá. E nós sempre procuramos o Estado para fazer uma gestão compartilhada, para fazer um trabalho conjunto de proteção. Só que o governo hoje ele vem num outro caminho: o da concessão de parques – como eles chamam –, que nada mais é do que a privatização.

Nós não queremos que vendam nosso território. A gente sempre fala que o nosso território é sagrado. Ele não é moeda de troca, não tem valor financeiro. Temos sempre que zelar por ele e o proteger, sempre tê-lo como nossa mãe, como quem nos cria, quem nos dá a vida. Hoje, o interesse do governo é completamente contrário a isso. Eles querem vender o parque, querem fazer a exploração. E a gente sabe que isso só agrava o futuro, que haverá derrubada de madeira, exploração de nascentes, plantação de eucalipto (que eles já fizeram nessa região). E sabemos que isso é prejudicial.

A gente não é antropólogo, não é biólogo, não fez faculdade, mas nós temos uma essência cultural, um aprendizado oral passado de geração em geração, e sabemos como proteger o nosso território. Então o que estamos fazendo aqui hoje é um ato pacífico, uma reza pedindo força a Nhanderu para proteger aqui. Porque a gente sabe que, por mais que a gente entenda a escrita e os papéis inventados pelos brancos, eles não têm palavra. Por isso tiveram que inventar o papel. E hoje nós falamos que não temos escrita, temos as nossas palavras. Mesmo conhecendo a palavra do branco – que é o papel –, a gente também tem nosso Nhanderu e acreditamos que ele vai proteger essa área. Estamos, primeiramente, procurando a proteção de Nhanderu, mostrando a ele que estamos firmes.

Nossas crianças hoje estão aqui. Nós fechamos o PES do Jaraguá de forma pacífica, não proibimos funcionários de entrar, não estamos prendendo ninguém aqui. A gente só não quer que eles entrem na área onde nossos mais velhos estão fazendo a reza. Às vezes o juruá [não-indígena] vai presenciar, não vai entender nada e isso acaba atrapalhando. Você pode ver, hoje aqui estão nossas crianças, desde um mês de idade até os mais adolescentes. Porque a nossa luta é assim, não fazemos divisões de homem, mulher, criança, velho, cor. Nós somos um só povo. Por mais que possamos ter diferenças, nosso espírito é um só. Somos todos o mesmo e todos têm que ter o mesmo respeito e o mesmo direito de lutar. Estamos todos juntos, vamos resistir e o governo não vai conseguir tirar e nem vender o nosso território. Nós temos fé em Nhanderu e vamos nos manter aqui.

O governo do Estado sempre foi omisso, nunca quis o diálogo, nunca nos viu com o respeito que devemos ter. Sempre nos tratou como se não tivéssemos direitos. Desde 1987, nós ficamos confinados numa área muito pequena - 1,7 hectare é menor do que dois campos de futebol. Hoje, com a expansão do território, algumas famílias estão se realocando, se expandindo, porque querem viver de uma forma tradicional, fazendo os plantios.

Eu nasci na TI Jaraguá e tenho a honra de poder rever o plantio do milho tradicional guarani, que é diferente do milho do branco. O milho do não-indígena tem tanto transgênico que, quando você tenta plantar a espiga, nada nasce. O nosso milho, ao consumir, guardamos as sementes dele para poder plantar de novo. Tem também a batata doce tradicional, que é menorzinha. Temos a criação de abelhas nativas aqui na aldeia, que é super importante para a Mata Atlântica. Aqui no Jaraguá, nós tínhamos perdido a maioria das abelhas e, hoje, conseguimos resgatar um pouco desse trabalho que os Guarani sempre fizeram de proteção do meio ambiente. E viemos fazendo isso para fortalecer a mata mesmo, para que as abelhas comecem a se reproduzir novamente aqui. Sabemos que não é um problema local, mas um problema do mundo. As abelhas têm acabado, a polinização também e isso é um prejuízo que vai aparecer no futuro.

Nós temos que ter o cemitério tradicional, que é onde nós guardamos os entes queridos. E tem que ser no nosso território. Não podemos levar aonde o branco leva porque não tem o mesmo respeito, o mesmo cuidado. Temos a moradia tradicional também, que é uma casinha mais simples, sem o concreto, mais de madeira e barro. Temos nosso opy, nossa casa sagrada, que tem de ser feita dentro do território. Fazemos a preservação e a manutenção das nascentes. Em parte do território plantou-se muito eucalipto e isso secou muito o lençol freático. As nascentes começaram a sumir, mas as poucas que sobraram nós viemos tentando manter. Uma das coisas que também aconteceram com a não regularização da nossa demarcação é que muitas chácaras cresceram em volta do Pico do Jaraguá e [os proprietários] começaram a desviar nascentes para poços e caixas d’água, tirando o percurso natural. Então, as plantas que sobreviviam daquelas nascentes começaram a perder força.

Hoje a gente vem tentando reverter essa situação. Muitos juruá questionam por que os índios querem “tanta terra”, eles acham que ocupação do território é só você construir algo de concreto e morar. Nós não queremos isso. Nós queremos não só morar, mas preservar. As árvores são nossa casa, nossa irmã, nossa família. Não precisamos derrubá-las para fazer uma casa no lugar. Essa é nossa ocupação tradicional. É dessa forma que a gente vive. O branco tem a escola, que são quatro paredes e uma lousa. A nossa escola é ao ar livre. É levar as crianças ao meio do mato, mostrar a elas os pássaros, as plantas, o chão. É elas poderem tocar na terra. Essa é nossa escola. É um pouco diferente do não-indígena esse contato com a natureza.

É isso que nós pedimos que o não-indígena entenda e respeite. O nosso ato aqui hoje é tanto pela preservação da demarcação da nossa terra indígena quanto pela não venda do PES do Jaraguá, que também é um bem para toda a população. Nós sabemos que, se venderem o parque, vão querer cobrar entrada, mas é um patrimônio público. É de toda a comunidade. Ninguém comprou a terra de Nhanderu. Ele deixou a terra para todos viverem. Não tinha que existir cerca, não tinha que existir o concreto. Não precisava disso. Só que hoje, com a ganância dos bandeirantes que ainda existem, querem só enriquecer, querem só fazer papel, dinheiro. Como os nossos mais velhos sempre falam, um dia vai chegar em que vão torcer esse dinheiro e verão que dele não sai uma gota d'água, vão abanar o dinheiro e verão que não sai ar puro para eles respirarem. Hoje a nossa luta vem nisso.

Depoimento feito na ocupação do Parque Estadual do Jaraguá em 13/09/2017.